Estudo comparativo de culinária

Cada país tem a Nigella Lawson que merece…

“Tá cheirando bom?”
“A tampa soa.”
“É tudo de bom, né, bonitinha?”

E “os plural”? E o boneco com icterícia? Isso sim que é Food Porn. Pura sacanagem!

Publicado em: on Setembro 25, 2007 at 2:30 pm Comentários (32)

Curry de músculo à moda da (minha) casa

Ao terminar de ler esta receita, você se perguntará: “Peraí! Isso é uma receita de carne ou de macarrão?”. Responda como quiser. Eu diria: “Coma e não bufe! Que diferença faz o nome?”.

Na verdade, as possibilidades do prato são duas: se você cozinhar a carne por menos tempo, terá pedaços inteiros (carne com macarrão); se cozinhar por mais tempo, a carne se desfará, e você terá um macarrão com molho de carne. Esta receita é para a segunda opção.

Equipamento:
Uma panela de pressão (2,5 litros), uma panela grande (5 litros), uma faca boa (para cortar a carne sem serrá-la), uma colher de pau ou bambu. Se você tiver uma panela de pressão de 5 litros, melhor: faz tudo num lugar só.

Ingredientes:
• 1 kg de músculo dianteiro. É sabido que os bois são veículos de tração traseira, daí a preferência pela sua “parte pós”, mais macia por ter tido menos uso. No entanto, depois de separadas do resto do boi, é difícil saber de que eixo veio a peça, e você vai ter que fazer o mesmo que eu: acreditar no que o açougueiro disser;
• 1 paio pequeno. Paio é paio, tanto faz. Ajuda se não estiver fedendo.
• Toucinho com pouca gordura, em quantidade igual à do paio. Sim, toucinho. Bacon é coisa de viado;
• Lingüiça portuguesa. Aqui, um problema para você resolver. A lingüiça a que me refiro (o cabo de guarda-chuva da foto acima) era mesmo portuguesa, com sotaque de Trás-os-Montes e tudo. Na falta de uma amiga retornando de Portugal com algumas destas a perfumar-lhe as roupas, minha recomendação é que você procure por uma lingüiça assemelhada na feira mais próxima. É fácil de se reconhecer uma boa portuguesa: ela é horrorosa, murcha, seca e fosca (refiro-me à lingüiça, é claro). Qualquer uma serve. O importante é ignorar as produzidas pelos grandes frigoríficos, lustrosas e estufadas;
• 1 cebola e meia, das grandes. Ou duas. Pode até ser mais. Não é isso que vai estragar o prato;
• 1 pacote de 1/2 kg de macarrão. Por disposição da minha senhoura, que acabou saindo para comprar o penne rigatti que se vê na imagem de abertura deste post, não usei o spaghetti da foto dos ingredientes. Ainda bem, porque essa massa de sêmola é uma bela merda;
• 1 lata de molho de tomate. Não aparece na foto porque me esqueci de colocar, ué! Não posso me lembrar de tudo!;
• Temperos: alho (1 colher de sobremesa), sal (a seu gosto), azeite (uns 50 ml), páprica picante (uma colher de sopa) e, é claro, o curry (1 colher de sopa ou mais, você manda).
Há curries para todos os gostos e bolsos. Eu me dou muito bem com este tal Índia, encontrável em muitos supermercados.

Preparação:
Limpe e corte a carne em pedaços pequenos. O músculo — conforme a profissão do falecido e a honestidade do açougueiro — pode conter umas partes “plásticas”, uma espécie de polipropileno animal pelo meio do músculo propriamente dito. É bom retirar o que for possível, mas sem arriscar a integridade de seus dedos, pois o que não sair na faca será destruído pela panela de pressão.

Pique a cebola, o paio, o toucinho e a lingüiça. Aqueça o azeite na panela e coloque os picados para fritar. Mexa sempre para evitar que a cebola grude.

Quando tudo estiver frito (quanto mais frito, melhor, mas evite o ponto de carvão), despeje-lhe a carne, as poeiras (sal, curry e páprica), e misture tudo até obter uma homogênea confusão visual.

Adicione 1 litro de água, mas saiba de antemão que as quantidades de água a adicionar nos próximos cozimentos (serão dois ou três) podem depender da potência de seu fogão e da vazão da válvula de sua panela.

Uma dica: Lembre-se de que o sal pode ser posto, jamais retirado. Adicione e experimente, adicione e experimente, até chegar no ponto que lhe agrade, sempre considerando que o macarrão lhe absorverá uma parte significativa e que, portanto, o molho pode até ficar um pouco salgado. Mas só um pouco.

Memorize o nível em que a água está. Por quê? Ora, porque eu sou um chato, e adoro inventar coisas idiotas para fazer o leitor de besta.

Feche a panela e conte 40 minutos de cozimento. Aos leigos, informo: por padrão internacional — regido por norma ISO e tudo — o tempo de cozimento em panela de pressão deve ser contado apenas quando a válvula começa a soprar. E se demorar a soprar, saia de perto, que a porra vai explodir.

Outra dica: Aproveite que vai ficar 40 minutos sem fazer nada, e lave a louça que sujou até agora. Como a louça não é muita, vai ficar tudo bem limpinho, não vai?

Passados os 40 minutos, abra a panela — e digo isto com a esperança de que você seja capaz de abrir uma panela de pressão em uso sem se matar e/ou emporcalhar sua casa inteira. Quem não tem competência, que não se estabeleça. Lembra do nível em que estava a água ao fechar da panela? Pois adicione o suficiente para que tudo volte ao que era há 40 minutos atrás.

Feche a panela e lhe dê mais uma carga de 40 minutos (a segunda). Agora decida. Quer carne com macarrão? Vá ao passo seguinte. Quer macarrão com molho de carne? Dê um terceiro cozimento de 40 minutos, sempre completando a água para chegar ao nível do início.

Ao abrir a panela, você deverá encontar algo parecido com o que está na foto ao lado, muito semelhante ao que estava na foto anterior, mas mais macio. E com todo o polipropileno dissolvido.

Despeje todo o conteúdo da panela de pressão na outra, maior.

Adicione um litro de água, o molho de tomate e espere ferver, coisa que acontecerá com certa dificuldade, porque o caldo está grosso, e vai ferver como lava.

Adicione o macarrão ao borbulhar da lava. Mexa tudo sem parar — e quando digo “sem parar” quero dizer exatamente isto: sem parar — durante 10 minutos. Se você for dos(as) que mexem direitinho, haverá boa possibilidade de obter o que está ao lado.

 

Sirva usando uma escumadeira para escorrer parte do molho, atentando para um detalhe: comida farta-bruto fica melhor em prato fundo. Dá uma olhada:

Há quem ponha queijo ralado. Eu prefiro sem nada. Sim, eu também podia ter posto uma folhinha de qualquer coisa por cima, só pra enfeitar. Mas não quero que duvidem de minha masculinidade.

Agora vê se capricha, porque deu um trabalho dos diabos para escrever esta receita!

Publicado em: on Setembro 23, 2007 at 11:54 pm Comentários (13)

Aqui também tem Google

Pois é, não dá pra escapar dos pára-google-quedistas. Mal começou este blog, começaram também as pesquisas esdrúxulas. Uma vez que informar, para mim, é quase uma profissão de fé, sigo respondendo a tudo e a todos.

Curry na culinária
Veio ao lugar certo. Tenha paciência, que ainda vou falar muito nisso.

Enfia
No seu, jacu! Mas me aparece cada um…

Cachaça paraense
Conheço esta. Serve?

Sangue de porco com cachaça
Ô, isso deve ser bom. Onde tem?

Por que a vaca come sal
Porque capim sem tempero não tem graça nenhuma.

Algo mais?

Publicado em: on Setembro 19, 2007 at 8:43 pm Comentários (8)

Sexulinária inglesa

Dizem os franceses (notadamente Obelix, o gaulês) que a culinária inglesa é a mais broxante que há sobre a face da Terra. Outros maledicentes costumam também mencionar que a estupenda variedade de vegetais que os ingleses apreciam (a batata) é consumida em múltiplas e variadas combinações com uma infinita gama de temperos (a manteiga), produzindo uma culinária única, com sabor de batata com manteiga. Não posso dar certeza de nada disso pois, que me lembre, a coisa mais inglesa que “comi” foi chá com leite num navio da Royal Mail Lines nos idos de 1964, o ano que teve sabor de vela apagada.

No entanto, é preciso dizer que há controvérsias, e a maior responsável por elas é Nigella Lawson, a bem fornida senhora que exibe seus English Muffins na foto ao lado. Como este blog ainda está em fase de apresentações, apresento-a a quem não a conhece, até porque ela ajuda — ai, como ajuda! — a confirmar minhas teorias.

Na primeira vez que a vi num programa do canal GNT, confesso, não entendi por que uma mulher com sotaque tão britânico podia cozinhar tão bem e tão… como dizer?… apaixonadamente. Na ocasião, Nigella preparava um brownie enquanto assava uma torta de frutas. Ia narrando o que fazia, lambia os dedos, lubrificava as travessas, felava uma colher de pau, acariciava o saco de chocolate, suspirava e gemia de paixão enquanto apertava uma barra de manteiga por entre os dedos. Ou era tudo imaginação minha, não posso garantir.

Nigella inaugurou um novo estilo de programa culinário e, para isso, deve ter tido apoio de algum executivo muito inteligente de sua emissora, porque na visão embaçada dos nossos, o programa tinha tudo para dar com os burros n’água. Primeiro, Nigella é mulher. Qual telespectadora se interessaria por assistir a uma mulher ensinando-a a fazer bolinhos e creminhos? Segundo, ainda mais uma bruta mulher como essa! Seu rosto bonito e a expressão safada — itens muito bem explorados pela direção do programa, que grava quase tudo em close — chamam mais a atenção do que o que ela efetivamente prepara. Perceberam-lhe o potencial e, para equilibrar a testosterona, alguém se lembrou de — ocasionalmente — chamar as crianças para dar um ar — eu disse ocasionalmente — maternal ao programa. Só era preciso mesmo encontrar quem fosse suficientemente sensível e inteligente para perceber que essa mulher cozinhando é pura sacanagem e — por isso — sucesso garantido. E é bom descobrir por aí que não estou sozinho. Mas ela diz que não é bem assim. Sei. Não é à toa que estão chamando o estilo de Food Porn.

Bom mesmo é perceber que, numa avaliação que considere os atuais padrões de “beleza” (entre aspas por motivos óbvios), a moça tem tudo errado: mais de trinta anos (cuíca 40)*, mais de setenta quilos, mais de um metro de bunda, e ainda beira isso de peitos. Mas não deve ter sido difícil alguém perceber que Nigella é, com perdão da má palavra, um bucetão. E que ainda cozinha! E lambe os dedos!

É por isso que trago Nigella à mesa como a comprovação de minhas teorias. E para quem nunca a viu em ação, mostro um clipe escolhido a dedo: Nigella preparando um chocolatinho quente, coisinha prosaica para tomar antes de dormir. Os marmanjos, por favor, não babem no teclado na parte que ela diz que gosta de rum. (Rum é cachaça, Nigella!)

Tá, primeiro assista, e depois me diga que eu sou doente.

 

(*) Fui conferir depois. Ela é de 1960. Cuíca, nada: a moça tinha mais de 40 quando gravou os tais programas.

 

 

Publicado em: on Setembro 18, 2007 at 10:18 pm Comentários (15)

Claudionor

Há alguns anos, na rua Cardeal Arcoverde (São Paulo), havia uma casa — misto de restaurante, boteco, entreposto e sapataria — que se chamava, como tantas outras na cidade, Casa do Norte. Mas esta tinha uma diferença: era a nossa Casa do Norte. Não passava um mês sem que fôssemos lá ao menos uma vez, experimentar mais uma das delícias que Adão, o restauranteur, tinha para nos mostrar.

O lugar era uma zorra. Para entrar, passávamos por entre duas montanhas de sacos de bolachas e salgadinhos de todos os tipos. Vencida a cordilheira, estávamos no setor que, com um pouco de boa vontade, seria o bar, onde recebíamos os cumprimentos dos dois ou três pinguços de plantão — sempre os mesmos. Passados os pinguços, aparecia um balcão revestido com azulejos e coberto de carnes secas de todos os tipos; ao lado, dúzia e meia de baldes de cem litros, repletos de feijão, de favas, e de todas as farinhas de mandioca possíveis, desde a Copioba baiana — fininha e amarela — até a Quebra-queixo pernambucana — branca, grossa como milho. Pelas paredes, sapatos, redes, berimbaus e peças de artesanato (digamos assim) à base de chifres e pés de boi. No comando das picapes, Adão, um baiano alto e simpático, a quem era sempre difícil cumprimentar, visto que o cabra tinha seis dedos em cada mão, coisa que não o fazia melhor ou pior, mas que eu não poderia deixar de mencionar, detalhista que sou.

Adão me apresentou duas grandes cachaças, que estão entre as minhas “dez mais” até hoje: Claudionor e Caribé, ambas sagradas filhas de Januária, Minas Gerais. Na época, antes da lei (*) que veio regulamentar — e reduzir — o teor alcoólico de algumas cachaças, a Claudionor exibia impressionantes 54% de álcool. Impressionantes por dois motivos: primeiro, até onde sei, nenhuma cachaça blended jamais exibiu tal poder de fogo; segundo, porque o tal fogo não queima, e a Claudionor é, ao menos para minha esturricada língua, uma cachaça quase suave, talvez por ser dormida em Umburana, madeira que amacia e perfuma qualquer súlfura.

Não foi sem alguma satisfação que vi, recentemente, a Claudionor ser laureada com o quinto lugar no ranking de cachaças deste ano, promovido pela revista Playboy, satisfação esta que cessou rapidamente quando descobri que, do prêmio para cá, o preço da garrafa já subiu três vezes. Mesmo assim, a Claudionor ainda é uma cachaça barata (em torno de R$ 10 por garrafa de 600 ml), forte e saborosa, mesmo quando se compara, seus aguados 48,5% atuais com os poderosos 54 de antanho.

Resolvi falar da Claudionor porque hoje, domingo, uma sua ilustre xará faz aniversário: Claudionor Vianna Teles Veloso ou, como é conhecida, Dona Canô, mãe de Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros muitos (muitos mesmo!). Cem anos de vida, com o mesmo teor de antigamente. Hoje é festa em Santo Amaro da Purificação. Salve, Dona Canô!

(*) A chamada Lei da Cachaça é, na verdade, uma Instrução Normativa do Ministério da Agricultura, datada de 30.jun.05, que define, por processo de fabricação e graduação alcoólica, quais bebidas podem se denominar “Cachaça” (ver item 2.1.2 no link). Acima ou abaixo dos limites estabelecidos (de 38 a 48% do volume), a denominação a se usar deve ser outra: “Aguardente de cana” ou “Destilado Alcoólico Simples de Cana-de-Açúcar”, conforme o caso.

Publicado em: on Setembro 16, 2007 at 2:42 am Comentários (6)

Considerações sobre o comer - parte Ia

Antes de prosseguir, percebo que será preciso me deter num ou dois pontinhos levantados nos comentários deixados na primeira parte deste tratado.

1) Meus esfomeados leitores anteciparam a mim e a minhas intenções lítero-culinárias ao mencionar os Chinchulines, saboroso prato argentino à base de tripas de vitela, suco de limão e bosta. Agradeço a todos a lembrança, mesmo que, neste caso, fosse absolutamente desnecessária: este é o tipo do prato que eu teria que mencionar aqui, mais dia, menos dia. Ainda mais porque o post já está escrito há anos.

2) Depois, digo que não tiro uma vírgula no relato que fiz sobre minha senhoura e a feijoada, até porque isso complicaria deveras a leitura do parágrafo;

3) Não mencionei as bolas de touro no texto porque uma mulher que as encare e as coma com prazer também é capaz de enrabar o proponente, variante que não é, de nenhuma maneira, objeto de minha pesquisa sexo-culinária;

4) Por fim e, talvez, mais importante, é preciso dizer que, em nenhum momento pretendi afirmar que vegetarianos não trepam. Eu mesmo nem teria cabedal para tais afirmações, pois conheci apenas uma senhora da espécie, que trepava muito e mal, o que a fazia duplamente incômoda. Triplamente, se considerarmos o vegetarianismo.

Próximos assuntos: Chinchulines e, enfim, a primeira receita, o Curry de músculo à farta-bruto.

Considerações sobre o comer - parte I

Escolhendo o que (e quem)

Com certeza, não sou o único mas, de uns tempos para cá, venho percebendo a relação direta que há entre o gosto por comer e a vontade de trepar. Se, por um lado, uma barriga muito cheia e todas as suas escatológicas decorrências podem ser (e são) fatores impeditivos para o desempenho das funções sexuais, notadamente no homem — tão dependente de uma certa paz de espírito para que possa… digamos… erguer-se ao trabalho —, por outro lado, pude comprovar, pela pior maneira — isto é, a empírica — que mulher que não come, não fode.

É tudo muito simples de verificar, e o processo nunca me levou a enganos. Senão, vejamos: você está numa mesa de bar, conheceu a moçoila agora mesmo, já espiou para dentro de todas as frestas que pôde, ela pareceu-lhe simpática, alegre — mas não em demasia —, ela não fede a curta distância e tem bons incisivos (os outros dentes, tanto faz, não prestam mesmo para nada). Você pesou prós e contras, adicionou o resultado ao número de cervejas que tomou até agora, e decidiu abrir o sobretudo e balangar o ernesto. Calma! Faça antes o teste. Se ela não passar, pode até seguir em frente, mas já vá avisado: vai desperdiçar recheio em vaca seca.

Como disse antes, o teste é deveras simples. Sem aviso, sem espiar o cardápio ou dar outro indício qualquer, mudando repentinamente de assunto, assim como lhe fosse imperioso saber a que valor fecharam hoje as ações da Petrobras PN, pergunte-lhe:

— Vamos pedir uma feijoada?

Antes, uma explicação. Por que uma feijoada? Ora, feijoada é prato nacional, todo mundo conhece, todo mundo faz mais ou menos do mesmo jeito; é boa mesmo quando mal-feita, de ontem, salgada, sem sal; tem um adequado “grau de repelência”, excelente para o teste em questão: além de carnes corriqueiras (lingüiça, charque, costelinha), tem também umas partes mais hardcore (rabo, pé, orelha), em oposição a frugais acompanhamentos (arroz, farofa, couve refogada, laranja em rodelas). É o prato perfeito para começar o teste, é o “ponto de ótimo” estatístico: mesmo se aproximando da nojeira completa, as mais corajosas sempre terão a possibilidade de se virar com uma suave combinação de guarnições, e as de rabo frouxo sucumbirão de imediato. Mas voltemos à mesa.

Este momento — o primeiro milissegundo depois da pergunta — é de crucial importância. Será preciso ter muita concentração, toda atenção será pouca. Mesmo que ela seja tarimbada em se safar de testes, será apenas nesse curto instante que ela não conseguirá conter sua reação, caso deseje — ou necessite — disfarçá-la. Não vou aqui ensinar ninguém a interpretar sinais e expressões, mesmo porque há mulheres versadas na arte de dizer sins que soam como nãos, vice-versa, ou talvez quem sabe. Mas você, conseguindo localizar e extrair a verdade que os sinais carregarem, poderá chegar a um resultado bastante preciso.

Se a resposta for (ou significar) um “não”, aproveite que está de estômago vazio e vá jogar bola com os amigos. Se a resposta for (ou significar) um “sim”, a coisa começa bem. Mas não esmoreça, ainda não é hora de relaxar: ela pode ser mais treinada que você nessas artes avaliatórias, e quem pode estar sendo devassado é você. Não interrompa o teste, a menos que ela saia com algo que possa ser interpretado como “feijoada me dá um tesão…”. Mas isso, alerto, só me aconteceu uma vez. E eu já casei com a moça.

Sendo assim, é hora de passar ao Nível 2: os famigerados miúdos. Enquanto espera a feijoada — ou mesmo em busca de alternativas para a refeição —, desfie o rosário visceral da vaca. Comece pelo mais comum, aquele que sempre foi sinônimo de saúde até que todo mundo descobrisse que as vacas tomavam hormônios: o fígado. Lamba os beiços ao pensar num bifão de fígado mal-passado, mencione a textura da carne, os nervinhos, o sangue escorrendo, bom para misturar ao arroz. Observe. E uma dobradinha? Ela prefere com batata ou feijão branco? Observe. Passe aos rins, sem deixar de mencionar o cheiro de banheiro de rodoviária que invade sua cozinha (e sua casa, e a de seus vizinhos) a cada vez que você faz uma boa fritada deles. Observe. Vá à rabada, e diga que não há nada melhor para comer com polenta (aproveitando para lhe dirigir um olhar metafórico, cheio de significados). Observe. Miolos! Ah, os miolos à doré que sua mãe fazia (atenha-se aos miolos, porque mãe não é assunto pra esse tipo de mesa). Passe pelo bofe, diga que nunca comeu, mas que seu cachorro adorava. Observe. Se necessário — caso a moçoila seja mesmo dura na queda —, mencione o sarapatel, prato que consegue ser feito de tudo isso ao mesmo tempo, mais o sangue do porco (ou bode, ou o que chegar perto da faca), temperado por um — nem sempre — suave cheirinho de bosta. Se ela passar por isso tudo sem engulhos, sem interrompê-lo, e conforme a qualidade das respostas, você pode estar à frente de uma amante de grande magnitude, daquelas que fazem tudo, limpam com a língua e lambem os beiços.

Ah, você mesmo não gosta de todas essas coisas, e prefere rúcula com pão sueco? Então, esqueça. Esse teste é feito para homens.

Publicado em: on Setembro 3, 2007 at 10:56 pm Comentários (27)

Pra começar…

…nada melhor que uma boa dose de cachaça.

Tropecei nesta “coincidência” num distribuidor que fica na rua Augusta. Não podia deixar de trazer uma para casa. Não é todo dia que se descobre ser xará de cachaça (ainda mais quando se tem um nome destes!) e, melhor, que ainda se ostenta um slogan elogioso: “Paixão ao primeiro gole”. Não sei como adivinharam.

A distribuidora é um assunto à parte. O cara transformou um apartamento antigo — desses enormes, com pé-direito estratosférico — numa loja de bebidas escondidinha no primeiro andar do prédio. Diz que tem umas duas mil marcas. Não contei, mas não duvido.

Sobre a cachaça: paraense (coisa rara), branquinha (como eu prefiro), adoçada (tem quem não goste), 39% de álcool (mas o doce disfarça), garrafa de 960 ml (tamanho desinfetante), rótulo feio e colado torto (como sói às boas marcas). Veredicto: comparativamente cara (R$ 20), mas valeu pelo nome. Nota 7.

Publicado em: on Setembro 1, 2007 at 10:16 pm Comentários (18)